Quando o "sentido de si" é afetado pelo trauma...

12-02-2020

Por Isabel Eusébio

Uma das contribuições mais relevantes da investigação em neurociências é  a descoberta do impacto do trauma psicológico no desenvolvimento do cérebro humano. Especialistas em medicina comportamental*, têm verificado que o trauma pode afetar as várias redes neurológicas do cérebro, desde as redes auto-reflexivas, até ás redes executivas envolvidas no raciocínio e planeamento.

Quando o trauma ocorre nos primeiros anos de vida, emoções excessivas geradas pelas redes auto reflexivas, como o medo (prepara a fuga) ou a raiva (prepara a luta) tornam-se inúteis ou até prejudiciais à criança indefesa, pelo que as conexões entre estas redes, ainda imaturas, são danificadas e interrompidas no seu desenvolvimento, com efeitos relevantes no modo como as pessoas se percebem.

Com a interrupção destas redes cerebrais, o sujeito pode vir a perder a capacidade de se conectar com a sua vida emocional interna, reduzindo a consciência dos limites do próprio corpo, o acesso às suas memórias de vida e a capacidade de olhar o futuro e perceber o que é mais relevante para si. Estes efeitos criam ainda mais dificuldades de desenvolvimento a quem já sofreu com o trauma na infância.

Ter um sentido de si enraizado no presente, depende da capacidade da pessoa se ver no contexto do passado e se orientar para o futuro, pelo que nas situações de trauma crónico da infância, a capacidade do sujeito para construir um Sense of self  favorável, pode ficar bastante comprometida.

Para além destes danos, numa situação de abuso ou trauma na infância, as redes neuronais de saliência e executiva podem ser igualmente afetadas, com implicações ao nível do estado de vigilância e atenção concentrada (manter foco), das memórias a curto prazo e capacidade de decisão e planeamento. Quanto mais a pessoa se dissocia ou se distancia do presente, maior a sua dificuldade em funcionar ao nível executivo, com consequências na sua evolução futura e realização pessoal.

Como a Neurociência o ajuda a transformar as suas emoções em Psicoterapia?

Nos dias de hoje, os técnicos de saúde mental e em especial os psicoterapeutas, são guiados na sua prática, pelo conhecimento adquirido através das investigações em neurociências, em psicologia clínica e da saúde e noutras áreas relacionadas.

Entre as causas que motivam mais as pessoas a procurar ajuda em Psicoterapia, identificam-se experiências de sofrimento ligadas a crenças, pensamentos, emoções e sentimentos, como a vergonha, a autocrítica severa, o pânico, a raiva e a impulsividade  (agressão, automutilação, ideação suicida) ou noutro sentido, a imobilização, bloqueio ou dissociação.

Estas reações extremas - mais relevantes em pessoas que sofrem de trauma complexo, questões de vinculação desorganizada ou fortes distúrbios de identidade, podem ser melhor compreendidas e trabalhadas num processo terapêutico, quando o psicoterapeuta consegue monitorizar os seus efeitos quer ao nível da experiência do cliente, quer ao nível da própria relação terapêutica.

O desenvolvimento das neurociências permite conhecer melhor o funcionamento das várias partes do cérebro e suas redes neurológicas, nomeadamente saber o que se passa quando o sistema nervoso simpático ou parassimpático, estão envolvidos nas reações ao trauma.

Segundo Frank Anderson, psiquiatra e psicoterapeuta IFS **, quando se verifica uma ativação do sistema nervoso simpático devido ao trauma, o sujeito experiência um estado de elevada energia física e emocional e pouca capacidade de se autorregular. Perante um gatilho externo, o despertar de partes internas que carregam dores do trauma, estimula o sistema simpático e as partes do cérebro que o permitem acalmar, são desde logo desligadas.

Inversamente, o funcionamento do sistema parassimpático conduz a um estado de hipoestimulação ou de atordoamento, caracterizado por baixo nível de energia (física e emocional) e de acesso ao funcionamento cognitivo. Por ativação deste sistema podem surgir sensações de freezing - imobilização, branqueamento de memoria ou raciocinio, etc.

Em Psicoterapia IFS - Internal Family Systems, a pessoa é ajudada a tomar consciência das suas facetas ou reações extremas, aprendendo a separar-se delas para melhor as observar e regular, a partir do seu mundo interno.

Ao longo da sua intervenção, o psicoterapeuta ajuda o cliente a criar um espaço de segurança, a auto-regular-se e a desenvolver a sua presença de Self; enquanto estimula a curiosidade do individuo em conhecer e interagir com as suas próprias facetas ou partes internas.

Enquanto o terapeuta encoraja o individuo a tolerar melhor a carga emocional que algumas das suas partes carregam e a reduzir o esforço defensivo de outras partes protetoras (ex: faceta auto-critica ou perfeccionista), as partes internas mais sobrecarregadas podem ser ouvidas, compreendidas nas suas historias e progressivamente libertadas de funções indesejadas, interna ou externamente.

À medida que as várias facetas do mundo interno do sujeito vão sendo reconhecidas e harmonizadas em relação com o próprio Self ( o individuo na sua essência), emergem qualidades inatas que favorecem a cura (calma, clareza, confiança, conexão, coragem, etc.) e a resiliência do sujeito, após a conclusão da psicoterapia.

---------

Fontes:

*Ruth Lanius, MD,PhD, How trauma Impacts the Major Brain Networks . Treating Trauma Master Series - National Institut for the Clinical Application of Behavioral Medicine

**Frank Anderson, M.D., Shifting out of extreme trauma states. www.psychotherapy networker.org / blog