Superar fardos antigos

07-01-2021

Por Joana Miranda

Um destes dias ouvi a seguinte frase pelo terapeuta e autor Terry Real: " Cada pessoa é uma ponte, abarcando os padrões que lhe foram entregues pelas suas famílias, e sendo a pessoa que entrega à próxima geração a sua nova versão deste legado".  Muito deste legado oferecido pelos nossos cuidadores fica entranhado em nós, para o bem e para o mal; muito deste legado faz parte de quem somos no presente: o que pensamos, o que sentimos, o que fazemos, o que transmitimos. Curiosamente não temos consciência de grande parte dele. Apenas "é assim, eu sou assim".

Se é verdade que em grande parte este legado faz parte da nossa identidade, também o é que outra fatia nos é dispensável. Em contexto psicoterapêutico vemos os nossos clientes chegarem com uma mochila pesada de crenças, sentires e experiências, e descobrirem ao longo dessa caminhada que podem largar parte desses fardos porque não lhes pertencem. São fardos dos seus antepassados, dos seus pais, avós, bisavós - pedras que foram entregues de geração em geração e guardadas sem nunca ninguém se questionar se precisavam delas para construir algo, ou se afinal apenas as carregavam para entregar aos seus filhos.

Terry Real diz que largar o legado que nos foi entregue requer coragem. Porque implica "deixar para trás" quem nos ensinou. Esta tomada de consciência de padrões e crenças que não são nossos nem nos são úteis, implica "separação" de quem no-los transmitiu. Implica luto, pois há transformação do velho em algo novo. Envolve parar, olhar, observar, conhecer, questionar, transformar e fazer o luto do que morre em nós, criando espaço para o novo. E é esta coragem de olhar para dentro e de nos confrontarmos com a dureza das pedras que trazíamos às costas, que nos permite deixar cair uma aqui e outra ali, e seguir caminho no sentido do que fundamentalmente nos move e apaixona.