Conviver com o medo e a incerteza em períodos mais adversos...

09-10-2020

Por Isabel Eusébio

Quando se vivem momentos particularmente difíceis como este, em que um perigo real ameaça a nossa vida, a nossa família, amigos e tudo aquilo que mais apreciamos, o nosso sistema nervoso pode levar-nos a sentir emoções com efeitos relevantes sobre os nossos níveis de energia e estados de animo.

Sabemos que todos somos diferentes e como tal, não reagimos do mesmo modo ao perigo, tal como não sentimos todos tristeza, culpa, vergonha ou outras emoções, com a mesma consciência ou intensidade. De acordo com a natureza e a experiência de cada um, lidar com o medo e a incerteza nas atuais circunstâncias, pode traduzir-se em formas tão distintas que vão desde a negação ou o humor, mais ou menos adequado... até à ansiedade ou mesmo a depressão.

Considerando estas diferenças individuais e as estratégias que cada um adota para lidar com a adversidade, é possível identificar um conjunto de recursos que todos podemos usar para manter ou recuperar o nosso equilíbrio. Alguns exemplos:

Adotar rotinas e boas práticas de auto cuidado:

  • Organizar o dia a dia - tornar a sua vida tão previsível quanto possível.
  • Criar ou manter hábitos alimentares saudáveis
  • Estimular o movimento e a expressão corporal, através do exercício físico, da música ou da dança
  • Reduzir sensações de isolamento - mesmo à distância, manter a interação com familiares e amigos e estimular a partilha de experiências e sentimentos.
  • Fomentar o prazer na criatividade - imaginar novos projetos, produzir uma pintura, um poema, uma peça de artesanato, uma receita de culinária, etc...
  • Observar os seus pensamentos e limitar preocupações excessivas
  • Definir estratégias, fazer planos e prevenir situações de emergência
  • Manter ou criar novos hábitos para regulação do sono

Se sentir demasiada ansiedade ou agitação interior, experimente...

  • Respirar lenta e profundamente, pelo abdômen
  • Focar a atenção no corpo, levar a consciência a cada uma das suas partes, notar as suas tensões e relaxar - contrair e distender os músculos, massajar.
  • Dedicar uns momentos para acalmar a mente - pratique a visualização de cenários positivos, celebre momentos gratificantes, faça meditação ou oração.

E se o seu estado de ânimo reclamar mais atenção, desperte a sua curiosidade.... e navegue à descoberta do seu mundo interior ....

  • Focar a atenção na mente, notar a presença das suas várias facetas ou "partes" internas (pensamentos, sentimentos, emoções) e dedicar alguns momentos a ouvir e a acolher cada uma delas ...
  • Se alguma dessas partes convidar a excessos (ex. comer, beber ou fumar demasiado) estimular o diálogo interno com outras facetas mais cuidadoras...
  • Se alguma das partes tentar invadir - ex. uma emoção demasiado forte ou um pensamento demasiado perturbador, reconheça a sua presença e necessidade, mas procure atenuar a sua intensidade, ouvindo-a e tranquilizando-a com compaixão, como se duma criança se tratasse...
  • E se á sua volta, encontrar muita agitação ou vulnerabilidade, dê mais espaço às suas partes contentoras e compassivas e se possível, disponibilize alguma da sua energia vital para o exterior. O seu mundo interno também agradece...

E ainda, se não se sentir bem... procure a ajuda de um profissional de psicologia.

Quando se trata de proteger a saúde publica e especialmente a saúde mental das pessoas, numa situação tão adversa como a que vivemos, importa abraçar um novo paradigma preventivo, em que a manutenção ou até a recuperação do bem estar psicológico pode estar ao alcance de todos, através de uma abordagem terapêutica e psicopedagógica.

Em terapia IFS - Internal Family Systems, um terapeuta facilitador, em auxílio do cliente, empresta o seu Self como modelo, na aprendizagem de um processo terapêutico de autoregulação e reparação psicológica. O cliente em terapia IFS, em segura conexão com o terapeuta, estabelece relações de afeto e confiança com as suas "partes" ou facetas internas. Cada vez mais em presença de Self (consciência de si), o sujeito aprende a ouvir e aceitar as suas "partes" com compaixão, num processo de libertação de fardos emocionais que resulta na superação da dor psicológica e na progressiva harmonização do seu mundo interno.