A propósito das "Softskills"    

29-11-2015

por Isabel Eusébio

Quando hoje nos retemos na analise das exigências do mercado de trabalho, facilmente detetamos como requisitos transversais , as competências sociais, afectivas e emocionais , também designadas correntemente por Softskills.                   A esse respeito, falamos de características individuais tais como ser auto-confiante, comunicar adequadamente em múltiplos contextos; saber gerir bem o seu tempo, trabalhar sob pressão, trabalhar bem em equipa, entre outras.

Num período em que as ofertas de emprego escasseiam ( nem há garantia de os manter) e em que os relacionamentos são tendencialmente mais efémeros ou superficiais, não surpreende o acumular de ansiedades e de estados psicológicos difíceis de lidar, sobretudo entre aqueles que ao longo do seu percurso, não desenvolveram boas competências relacionais.

Na literatura especializada, todos ficamos a saber que estas competências individuais podem ser treinadas e aprendidas ao longo da vida, o que é uma boa noticia!...      Por outro lado, também podemos perceber que o processo de aprendizagem destas capacidades socio-afectivas, beneficia de experiencias relacionais muito precoces e estruturantes que é suposto ocorrerem desde os primeiros anos de vida.

Efectivamente , a nossa carreira não começa num banco de escola mas sim bastante mais cedo, na nossa historia. Ao longo do tempo, esta tomada de consciência tem orientado os técnicos de saúde e educação a ajudar as famílias a perceberem cada criança na sua intersubjectividade.

As relações da criança recém chegada, com um ou mais cuidadores, resultam em experiências emocionais únicas, mais ou menos intensas, carregadas de significado e carga afectiva. Idealmente, estas primeiras relações humanas, nutrem a construção do "EU" (na medida certa) e promovem a capacidade de conexão e o sentimento de pertença.

Quando tudo corre suficientemente bem, as experiências de contenção e de sintonia afectiva, com os mais próximos - a começar pelas expressões do olhar, tom de voz e contacto corporal , permitem à criança sentir-se acolhida e validada por outros, desde o inicio da sua existência. Assim inicia-se uma etapa em que a confiança básica no outro humano, abre portas a todas as novas experiências relacionais e de desenvolvimento - auto-estima, autonomia, intimidade, etc.

Na ocorrência de experiências traumáticas durante a infância ( abuso , negligência, abandono, etc.), se a criança ainda não dispõe de maturidade funcional para comunicar verbalmente ou para pensar sobre estas vivências, elas são guardadas nas memórias corporais, podendo revelar-se mais tarde, em expressões emocionais adversas, fora do controle da consciência.

Também o adolescente ou o Jovem adulto, quando em situação de maior vulnerabilidade, não beneficia dos recursos psicológicos necessários à sua resiliência (próprios ou através da sua rede de suporte), é susceptível de acumular experiências de vida desfavoráveis ao desenvolvimento de competências socio-emocionais adaptativas, sendo útil restabelecer a confiança, através de uma relação a dois, potencialmente segura e reparadora.

A investigação em Neurociências e em Psicologia do Desenvolvimento tem vindo a demonstrar os efeitos benéficos da psicoterapia, na restauração das capacidades de conexão e resiliência de crianças e adultos com traumas psicológicos.

Neste sentido, o acompanhamento psicológico, sob diversas formas, pode constituir não só um meio privilegiado de desenvolvimento individual , como uma oportunidade única na definição e construção de objectivos de carreira mais ambiciosos e gratificantes.